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Planeta Orgânico |
Dezembro-2000 |
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Sementes
na Agricultura Agroecológica
A SEMENTE:
o Alicerce da Agricultura
Agroecológica. |
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| Até um período relativamente recente, o único método de seleção
dirigida era coletar as sementes daqueles
indivíduos de uma população que mostravam
uma ou mais características desejáveis,
como potencial de alto rendimento ou
resistência a doenças, e usar aquelas
sementes para plantar a próxima safra.
Este método é chamado de seleção
massal, e produz um deslocamento
gradual na freqüência relativa de uma
ou mais características de uma população
de plantas da mesma espécie. Foi através
deste método, por exemplo, que as populações
indígenas da América Latina foram selecionando
as plantas de milho que tinham mais
grãos na espiga, obtendo as plantas
que hoje conhecemos. |
| Através
de métodos de seleção massal, produtores
em todo o mundo desenvolveram variedades
chamadas crioulas. Elas são adaptadas
às condições locais e, ainda que uma
variedade crioula possua características
que a diferenciem em relação às demais
variedades, ela possui, internamente,
uma maior variabilidade genética quando
comparada às variedades obtidas por
outros métodos. A seleção massal funciona
da mesma forma tanto para plantas que
se auto-fecundam, como ocorre com a
soja, quanto para plantas que cruzam
com outras, como acontece como o milho,
por exemplo. |
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A
soja se auto-fecunda
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| Este
método mais antigo e tradicional de
seleção dirigida envolve, ao mesmo tempo,
o organismo da planta e a seleção a
campo. Apesar de ser um processo relativamente
lento e mais variável em seus resultados,
tem a vantagem de ser mais semelhante
à seleção natural na forma como ocorre
em ecossitemas naturais. Características
envolvendo adaptação às condições locais
são retidas, juntamente com outros aspectos
mais diretamente desejáveis de rendimento
e desempenho, mantendo-se também a variabilidade
genética. |
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| Desta
forma, as variedades crioulas atendem
a um dos princípios básicos da Agroecologia
que é o de desenvolver plantas adaptadas
às condições locais da propriedade,
capazes de toleram variações ambientais
e ataque de organismos prejudiciais.
Outro aspecto importante consiste na
maior autonomia do agricultor, que pode
coletar as sementes destas variedades
e replantá-las no ano seguinte, adquirindo
maior independência do mercado de insumos
e gerando um material que com toda sua
variabilidade genética se torna cada
vez mais vigoroso e adaptado ao seu
tipo de solo e clima. |
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| Variedade de milho batizada de
"Sol da Manhã" |
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| Um
exemplo brasileiro do potencial dessa
prática, foi desenvolvido no Rio de
Janeiro. A Embrapa –Agrobiologia, em
parceria com agricultores assentados,
obteve uma variedade de milho batizada
de "Sol da Manhã", capaz de produzir
cerca de 4 toneladas por hectare (a
média nacional é de 2t /ha) sem a necessidade
de adubos sintéticos ou agrotóxicos
e num solo àcido (desfavorável à cultura).
Perfeitamente adaptada às condições
locais a variedade produzida sob manejo
agroecológico se tornou um opção lucrativa
para os agricultores pela boa produtividade
e pela economia ao não exigir os insumos
tradicionais do manejo convencional
(adubos altamente solúveis e agrotóxicos). |
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Contudo,
a produção de sementes de variedades
voltadas à agricultura orgânica ainda
é uma atividade muito pouco desenvolvida
no Brasil, forçando muitos produtores
agroecológicos a adquirirem sementes
de plantas cultivadas em manejo convencional.
Isso significa que, embora tais sementes
não tenham recebido "banhos" de agrotóxicos
(como ocorre com sementes tratadas
para plantio convencional) elas vieram
de plantas que foram cultivadas em
sistema convencional, ou seja, que
receberam fertilizantes altamente
solúveis e agrotóxicos. Além disto,
grande parte destas sementes são híbridos
ou variedades obtidas por outros métodos
de melhoramento que não a seleção
massal apresentando, portanto, pouca
variabilidade genética e maior suscetibilidade
ao ataque de insetos prejudiciais
e doenças, exigindo do agricultor
um trabalho maior para equilibrar
a saúde dessas plantas.
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| A
Instrução Normativa n0 007
de 17/05/ 1999, quando o mercado de
sementes agroecológicas não oferece
este material, autoriza o uso de sementes
vindas de sistemas convencionais, desde
que estas passem pela inspeção de uma
entidade certificadora e que não sejam
transgênicas.Atualmente, no Brasil quem
produz e vende sementes agroecológicas
são a Cooperativa Regional dos Agricultores
Assentados Ltda. (Cooperal) de Bagé,
Rio Grande do Sul e a empresa paulista
"Sakama" que vende sementes produzidas
na Europa. |
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| Para quem deseja coletar e armazenar
sementes de variedades crioulas que
existem em sua região e multiplicá-las
para as futuras gerações, podem seguir
as dicas de Jude e Michel Fanton, autores
do livro Seed Saver’s Handbook
(Manual do Coletor de Sementes), que
sugerem alguns grupos de sementes para
coletar e armazenar para futuros plantios: |
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a)Sementes antigas de muitas gerações: São sementes que foram conservadas
através das gerações pelo mundo afora,
passando dos avós para os filhos,
dos vizinhos para outros vizinhos
e assim por diante. Os índios norte-americanos
da tribo "Hopi" guardaram sementes
de milho por muitas gerações. A espécie
é mais forte, resistente a pestes
e mais saborosa que os híbridos. Estas
sementes só existem hoje devido ao
cuidado que as gerações anteriores
tiveram com elas.
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Índios norte-
americanos
guardaram sementes de milho
por muitas gerações |
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| b)Sementes de variedades locais:
São sementes de plantas cultivadas
por muitos anos em uma determinada região.
Conversar com as famílias mais antigas
do local é uma forma de obter informações
dos possíveis locais onde encontrar
estas sementes. |
| c)Sementes de variedades que
não estão mais disponíveis comercialmente:
Sementes de variedades tradicionais
que antes eram vendidas por alguma empresa
e deixaram de serem lucrativas. Um boa
estratégia é contactar agricultores
familiares do local e feirantes sobre
a possibilidade de conseguir sementes
desse tipo, inclusive variedades exóticas
ao paladar. |
| d)Sementes de variedades imigrantes: Estas sementes
fazem parte daquele grupo trazido pelos
imigrantes e colonizadores, os pioneiros
da região, que trouxeram sua gastronomia.
Asiáticos e europeus trouxeram as variedades
adaptadas ao clima de origem e sabor
de suas culturas, que posteriormente
se aclimataram em nosso país. Procurar
lojas especializadas e feiras étnicas
é uma forma de se tentar obter esse
material. |
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Colonizadores trouxeram
sua gastronomia |
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| e)Sementes históricas: São
sementes que possuem um significado
histórico na região em que eram multiplicadas
e plantadas. Geralmente, estão associadas
a um alimento preparado para um determinado
evento. Estas sementes são muito apropriadas
para se usar em práticas de educação
ambiental. |
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| Por fim, vale acrescentar que o principal acervo para se coletar
e armazenar estas sementes no Brasil
é o próprio povo. Iniciativas como a
do "Clube da Semente" http://www.clubedasemente.org.br/ no Brasil, existem
para demostrar a importância de se coletar
sementes de variedades com risco de
extinção e assegurar a existência de
várias espécies vegetais. Espécies que
poderão constituir a base de uma agricultura
agroecológica que conserve a biodiversidade
num sistema de produção de alimentos
em harmonia com o ser humano. |
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Fontes:
Livro "Agroecologia", Stephen R.
Gliessman, Editora da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, 2000.
Revista "Permacultura – Brasil", ano
1, n0 01, primavera de 1998.
Boletim "Agroecológico", ano 3, n0
12, julho de 1999.
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